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'Dá vontade de morrer': a dor e o sofrimento do relato de uma mulher marcada pela violência

'Dá vontade de morrer': o relato de uma mulher marcada pela violência de gênero "Às vezes dá vontade de morrer". Carregada de dor e sofrimento, a frase revela, ...

'Dá vontade de morrer': a dor e o sofrimento do relato de uma mulher marcada pela violência
'Dá vontade de morrer': a dor e o sofrimento do relato de uma mulher marcada pela violência (Foto: Reprodução)


'Dá vontade de morrer': o relato de uma mulher marcada pela violência de gênero "Às vezes dá vontade de morrer". Carregada de dor e sofrimento, a frase revela, de forma extrema, os impactos de diferentes tipos de violência sofridas por mais de uma década. Aos 41 anos, em tratamento de esquizofrenia e em sua quarta passagem por um abrigo municipal, Bruna (nome fictício) carrega no olhar as marcas de histórias que consegue narrar: agressões físicas sofridas inclusive durante a gravidez, abusos sexuais, violência psicológica, ameaças e exploração financeira. "Ele jogava na minha cara que ele foi pra prisão. Ele falou assim: 'eu fui pra prisão, agora quem é prisioneira minha é você'. [Queria] que me deixasse em paz. Se conformasse que acabou mesmo", disse. A história de Bruna é uma entre centenas registradas pelo Sistema de Notificação de Violências de Campinas (Sisnov). Segundo a escrivã da Polícia Civil e mestranda em Direitos Humanos e Vulnerabilidades pela PUC-Campinas, Angela Cristensen, transtornos mentais que provoquem impedimentos duradouros e comprometam a autonomia podem integrar esse universo. "Tem casos de pessoas que têm esquizofrenia e que conseguem se comunicar e fazer tudo. Mas a minha grande preocupação é a vítima que não consegue se comunicar, a vítima que tem uma outra questão mais agravada", afirma. Em Campinas, apenas no 1º semestre de 2026, uma em cada cinco notificações de violência contra mulheres registradas no sistema envolveu vítimas com algum tipo de deficiência. 📲 Participe do canal do g1 Campinas no WhatsApp Angela estuda justamente a violência doméstica contra mulheres com deficiência. E para ela, os números não retratam toda a dimensão do problema. "Os números de estatísticas que envolvem mulher com deficiência são baixos. Apesar de ter uma evidência de uma violência, eu entendo que ainda há muita subnotificação", afirma. Segundo a pesquisadora, a condição de deficiência pode ampliar obstáculos na tentativa de romper ciclos de violência. Em muitos casos, a mulher depende do próprio agressor para se locomover, acessar serviços de saúde, utilizar a internet ou manter tratamentos médicos. A advogada criminalista Erika Chioca Furlan, doutora em Ciências Sociais pela Unicamp e ex-delegada da Polícia Civil, avalia que as dificuldades de acesso ajudam a explicar a subnotificação. "Essas pessoas acabam tendo ainda mais dificuldade de fazer a denúncia. Porque não é toda delegacia que vai contar com um intérprete de Libras, não é toda delegacia que vai contar com braile, ou com acessibilidade fácil", afirma. Vítima de violência contra a mulher Reprodução/EPTV Agressão até do padrasto Entre os exemplos dessa subnotificação está o de Joyce (nome fictício), que é surda e viveu situações de violência em um antigo relacionamento com um homem ouvinte. Ela explica que após descobrir traições, desejou encerrar o relacionamento, mas foi impedida de deixar o imóvel. E não conseguiu acionar a Polícia Militar, por exemplo. O cenário de violência foi ampliado por conta de uma pressão religiosa por parte da família, que entendia que o relacionamento deveria ser mantido, mesmo contra sua vontade. Em um dos episódios mais graves, acabou agredida pelo padrasto, que a apertou e jogou contra o chão em uma das tentativas de deixar a casa que dividia com o companheiro. Ela sofreu machucados na cabeça e nas pernas, e ficou com dores nos braços. Joyce contou que só conseguiu se livrar da relação com ajuda de uma tia, que interveio e a levou para casa. Apesar da gravidade da situação vivida, não prestou queixa. E a barreira da comunicação é uma das explicações. Embora delegacias possam oferecer serviço de intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais) de forma remota, a particularidade da denúncia, que envolve ssituações extremamente pessoais, fez com que ela não buscasse a Polícia Civil. Segundo Joyce, ter policiais fluentes em Libras seria uma forma de eliminar uma dessas barreiras da subnotificação. Violência extrema Enquanto Joyce conseguiu sair da situação de violência e reconstruir a vida em um novo relacionamento, Bruna está em sua quarta passagem por um abrigo municipal de Campinas. E mesmo longe do ex-companheiro, ela afirma que o medo permanece. "Eu sei que eu tô sendo perseguida. É uma sensação ruim. Quando eu fico sozinha em casa, no abrigo, andando na sala, no quarto, eu posso ter companheira, mas mesmo assim eu tô com medo." Um sentimento explicado pelos anos de abuso e violência sofridos. O quadro de esquizofrenia se agravava pois o companheiro negligenciava o tratamento, tudo para deixá-la ainda mais vulnerável. "Ele se aproveitou da minha doença, me deixava para baixo", conta. Para Angela Cristensen, mulheres com deficiência ou transtornos que exigem acompanhamento contínuo podem sofrer formas específicas de violência, muitas vezes invisíveis. Entre elas estão a interrupção proposital de tratamentos, a retenção de medicamentos e o controle do acesso a serviços de saúde. "O agressor muitas vezes não fornece medicamento, não leva para as consultas médicas ou não permite", diz. Segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP) de São Paulo, situações como a retenção de cadeiras de rodas, aparelhos auditivos e medicamentos ou o impedimento de acesso a tratamento podem configurar violência doméstica e permitem a solicitação de medidas protetivas de urgência. LEIA TAMBÉM Campinas tem média de 7 medidas protetivas por dia em 2026, e especialista defende prevenção da violência contra mulheres Foto de arquivo de caso de violência contra a mulher EPTV/Reprodução Todos os tipos de violência Bruna também relata que foi agredida durante as gestações de dois filhos, recebendo socos e chutes, inclusive na barriga. E por vezes tentou fugir dessas sessões de tortura. "Ele deu um soco no meu ouvido, que eu quase fiquei surda. Ele vinha abaixando em mim com um pau, na costela, na gravidez. Eu corria, pulava muro, grávida. Eu pulava o portão, ele corria atrás de mim, que eu ia me pegar. Chegou, bateu na minha cabeça no chão", descreve. Além da violência física, ela foi abusada por diversas vezes durante mais de uma década de relacionamento. O ato sexual sem consentimento e o controle constante da rotina se tornaram rotina. "Abusou muito nas madrugadas. Falava que eu tinha outro. Ele pegava no pescoço, batia em mim, empurrava da cama, forçava eu a fazer as coisas que eu não queria." O controle do agressor também era manifestado pela exigência dos documentos e bens. Sem o RG, por exemplo, o ex-companheiro achava que a impedia de buscar um lugar no abrigo. Durante um dos períodos em que permaneceu acolhida, Bruna conta que o agressor ainda vendeu e se desfez de bens que eram seus. Notificações em Campinas Os números do Sistema de Notificação de Violências (Sisnov) mostram que a participação de mulheres com deficiência entre as vítimas de violência segue elevada nos últimos anos em Campinas. Em 2022, foram 249 notificações envolvendo vítimas com algum tipo de deficiência, o equivalente a 13,6% dos casos registrados no município. Em 2024, esse número chegou a 675 notificações, atingindo 23,9% do total. Já no primeiro semestre de 2026, foram 362 registros, o correspondente a 20,3% das notificações feitas no período. Para especialistas, entretanto, os dados podem representar apenas uma parcela da violência efetivamente vivida por essas mulheres. A advogada criminalista Erika Chioca Furlan afirma que vítimas com deficiência frequentemente encontram obstáculos adicionais para acessar os mecanismos de proteção e registrar denúncias. "Essas pessoas acabam tendo ainda mais dificuldade de fazer a denúncia. Porque não é toda delegacia que vai contar com um intérprete de Libras, não é toda delegacia que vai contar com braile, ou com acessibilidade fácil." Segundo ela, as barreiras de acessibilidade podem impedir que parte das ocorrências chegue aos órgãos oficiais. "Então, é também uma barreira para que essa mulher faça a denúncia." Erika defende, por exemplo, que unidades básicas de saúde e postos de atendimento possam desempenhar papel estratégico na identificação de casos de violência, por serem um ambiente de maior acessibilidade. A doutora em Ciências Sociais pela Unicamp ressalta que os números representam apenas uma parte do problema, e que é preciso um olhar sobre o tema, já que mulheres com deficiência enfrentam obstáculos extras para romper o ciclo da violência e acessar a rede de proteção. Rede de proteção Campinas conta com serviços municipais de apoio às mulheres vítimas de violência, como o abrigo Sara-M, onde Bruna está atualmente. Veja quais são: A Casa Abrigo da Mulher Sara-M é um local seguro e sigiloso para vítimas de violência, para mulheres maiores de 18 anos com ou sem filhos que são encaminhadas pela Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) ou por órgãos de proteção à mulher vítima de violência. O Centro de Referência e Apoio à Mulher (Ceamo) presta acolhimento, atendimento social e orientação jurídica à mulher em situação de violência de gênero, realizando atendimentos individuais, familiares e em grupo. O centro está localizado na Rua Onze de Agosto, 412, Centro, de segunda a sexta, das 8h às 19h. O Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) é uma unidade pública que oferece atendimento psicossocial e orientação jurídica para as famílias que estão em situação de violação de direitos e risco social. São cinco unidades, uma em cada região (Norte, Sul, Leste, Noroeste e Sudoeste), de segunda a sexta, das 8h às 17h. Foto de arquivo da 2ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Campinas (SP) Daniel Mafra/EPTV O que diz a SSP Em nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que tem ampliado as formas de acolhimento às mulheres, incluindo os atendimentos dedicados às mulheres com deficiência, e que houve aumento dos registros, sendo que cerca de um quarto deles ocorreram sem a necessidade que a vítima fosse até a delegacia. Veja a nota na íntegra: "A Secretaria da Segurança Pública tem ampliado continuamente as formas de acolhimento às mulheres, incluindo os atendimentos dedicados às mulheres com deficiência, e conta com uma rede de proteção que envolve diferentes secretarias de Estado, além de ter reforçado o atendimento nas Delegacias de Defesa da Mulher. Na atual gestão, a rede de atendimento policial especializado cresceu 90% e passou de 202 para 384 unidades, entre Delegacias de Defesa da Mulher e Salas DDM. As unidades com funcionamento 24 horas passaram de 11 para 39. A rede de proteção inclui canais que dispensam o deslocamento até uma unidade policial, como o 190, a DDM Online e o aplicativo SP Mulher Segura, que oferece botão do pânico para mulheres com medida protetiva. O Estado tem ainda as Salas Lilás em Institutos Médicos Legais, que garantem atendimento reservado durante os exames. Para o atendimento de pessoas com deficiência, delegacias de Campinas, da capital, de Ribeirão Preto, Santos e Guarulhos contam com Centros de Apoio Técnico, fruto de parceria com a Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência. As equipes, formadas por psicólogos, assistentes sociais e intérpretes de Libras, auxiliam no acolhimento e no registro das ocorrências e encaminham as vítimas para serviços de assistência social, saúde e educação. Desde 2018, foram mais de 22 mil atendimentos no estado, mais de 3 mil deles em Campinas, onde o centro funciona na 2ª Delegacia de Defesa da Mulher. As duas DDMs da cidade estão instaladas em prédios com acessibilidade. Pessoas surdas podem ser atendidas em qualquer delegacia do estado pelo programa São Paulo São Libras, central de intérpretes acessada por videochamada pelo aplicativo Poupatempo ou por QR Codes disponíveis nas unidades. O enfrentamento à violência contra a mulher conta também com o trabalho da Secretaria de Políticas para a Mulher, que atua em cooperação com a rede de proteção para garantir atendimento humano, acolhedor e completo às vítimas, conforme a Lei Maria da Penha. Situações como a retenção de cadeiras de rodas, aparelhos auditivos e medicamentos ou o impedimento de acesso a tratamento podem configurar violência doméstica e permitir a solicitação de medidas protetivas de urgência. Com mais portas de entrada, mais mulheres têm procurado a polícia. No estado, de janeiro a setembro deste ano, foram registrados 288.275 casos de violência doméstica. Na região de Campinas, foram 11.571 registros. Em ambos os casos, cerca de um quarto dos registros foi feito sem que a vítima precisasse ir a uma delegacia, pela DDM Online, pelas Salas DDM ou pelo aplicativo." VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias da região no g1 Campinas

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